E repete “que é que você quer?”, com a prosódia exacerbada de uma ligação ruim. Digo que estou metido numa encrenca séria, e ela diz “sei”. Digo que tem gente me seguindo, e ela diz “sim”. Digo que podem me matar, e consigo despertá-la. Mas em vez de apreensão ou pânico, ela faz cara de desgosto, como se morrer fosse sujo. E diz “você desceu mais baixo do que eu pensava”. Peço pizza de mozarela, mesmo achando que nós dois não combinamos mais com pizza, com essa lanchonete, com esse shopping. Invejo um pouco as cabeças que despontam no vão, que sobem curiosas uma atrás da outra na escada rolante, cabeças que esticam o pescoço, e vão criando corpo, e criam pés que saltam na sobreloja, e viram pessoas que agitam cabeças que falam, piscam, riem e mastigam triângulos de pizza por ali. Finalmente minha ex-mulher estala a língua e diz que sente muito, mas não vê por onde me ajudar. O “sinto muito” vem com pronúncia do coração, e é um coração instável, o dela. Agora está quase pedindo para me ajudar. O que eu lhe dissesse, amarraria a cara mas faria. Pedisse dinheiro, demoraria um pouco mas daria. Seria capaz de me acolher de volta em casa até o perigo passar. E não duvido que logo estivesse me falando como antigamente, com o mesmo timbre que usava sempre para dizer “te amo mais que tudo” quando nos conhecemos, cinco anos atrás. Dizia “te amo mais que tudo” no meio do almoço, dizia no cinema, no supermercado, na frente dos outros; eu achava estranho ela dizer isso a toda hora, mas acabei por me acostumar. Coração instável. Um dia ela voltou do médico, puxou-me pela mão até o quarto, estava muito corada e disse que havia dado positivo, estava esperando um filho. Não compreendi. Eu nem sabia que ela fora ao médico. E ter um filho, no meu cérebro, era notícia que entrava, mexia lá dentro, e não conseguia formar uma ideia. Não imagino qual tenha sido a minha reação naquele momento, nem lembro se falei alguma coisa. Só lembro que o rosto dela empalideceu com uma rapidez que nunca vi nada igual, como se todo o sangue tivesse caído por um buraco. Ela perguntou se eu era um monstro sem sentimentos. Mas com os dias, acabei também me acostumando à ideia do filho; melhor ainda uma filha, que dizem que é mais ligada ao pai. Cheguei mesmo a pensar em dar à menina o nome da minha irmã. Até que num fim de tarde minha ex-mulher voltou do médico com uma cara horrível, bateu a porta do quarto e disse que tinha tirado o filho. Jogou-se na cama aos soluços e ficou repetindo “tá satisfeito? tá satisfeito?”. Acho que foi daí que ela deixou de me amar mais que tudo.